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"Estados Unidos ajudaram a radicalizar Afeganistão", diz jornalista paquistanês

Ao SBT News professor Syed Irfan Ashraf explica que a radicalização está destruindo a cultura local

Os Estados Unidos e a Arábia Saudita ajudaram a trazer grupos ultraradicais para a fronteira do Afeganistão e Paquistão. A opinião é do professor Syed Irfan Ashraf da Universidade de Peshawar, jornalista e autor de várias estudos sobre o povo pashtun, do qual ele também faz parte. O paquistanês cita, por exemplo, a pressão sobre as hujras, um dos rituais mais importantes da cultura local. 

povo Pashtun
Povo Pashtun/Sérgio Utsch SBT

Hujras são conselhos, onde os homens se reunem pra discutir questões referentes à comunidade, pra ensinar os mais novos e pra resolver disputas entre eles. "Pra fazer fofoca também", diz o professor. As hujras, que desde sempre vetam a participação de mulheres, foram o celeiro de muitas críticas a grupos extremistas islâmicos. Por isso, foram alvos de muitos atentados nas últimas décadas. 

Em entrevista concedida ao SBT News, no Paquistão, o Professor Syed conta que a radicalização é a pior ameaça à cultura dos pashtuns, uma tribo etnolinguística que vive entre os dois países. Os líderes do Talibã, por exemplo, são pashtuns. Boa parte dessa radicalização, ele diz, deve-se à expansão das madrassas, escolas religiosas que cresceram em número e em extremismo, com o dinheiro de grupos árabes que aumentaram a influência na região a partir da década de 1980 pra lutar contra os "ateus" soviéticos que dominavam o Afeganistão. 

Irfan Ashraf também comenta o papel das mulheres na sociedade pashtun, relegado a segundo plano mesmo antes dos talibãs e a impressão dos brasileiros sobre a burca, veste feminina que cobre todo o corpo, inclusive os olhos.  

Mulheres de burca no Afeganistão
Mulheres de burca em Cabul/ Sérgio Utsch SBT

SBT News: A burca não é obrigatória no Paquistão, mas há muitas mulheres usando. Por que? 

Professor Syed: A burca é uma questão cultural. Antes da chegada do Talibã, mulheres pashtum costumavam usar burca. Quanto o Talibã chegou, eles a tornaram obrigatória em quase todos os lugares. Mas esse não era o caso dos pashtuns. Normalmente, as mulheres pashtuns usam burca quando elas saem pra encontrar familiares, pra comprar algo no mercado. Era uma forma delas se vestirem, mas elas também podiam tirar, mostrar seus rostos. Não era obrigatório, nem forçado. O Talibã mudou essa narrativa. 

SBT News - No Brasil, a burca é vista por muitos como uma forma de opressão às mulheres. 

Professor Syed: Não é opressão. É voluntário. Se é da sua vontade, tudo bem. É sua cultura. No momento em que isso se tornou obrigatório, aí sim se tornou uma forma de opressão. 

SBT News: O senhor tem alertado que a base do Talibã pode não entender e concordar com as decisões tomadas pela liderança do grupo. Que decisões seriam essas e quais seriam as consequências? 

Professor Syed: O Talibã não é um grupo político. É uma milícia armada, que chegou ao poder no Afeganistão. Mas nos últimos 20 anos, eles estavam lutando e, obviamente, agora pode haver alguma forma de divisão. Algumas pessoas do comando estavam negociando com os Estados Unidos, com a União Europeia e estavam dando todas aquelas garantias de que, uma vez no poder, o Talibã iria impor regras que poderiam conviver com as do restante do mundo. Mas não podemos esquecer - e sempre reforço isso - o Talibã é uma milícia. Então, há muitos que lutaram na linha de frente. Eu não acho que os soldados e seus comandantes que enfrentaram diretamente o ex-governo afegão e os Estados Unidos vão necessariamente concordar com as decisões que são feitas pela cúpula do Talibã. Nas últimas semanas, uma das razões para a demora do anúncio do novo governo é que aqueles da base provavelmente não concordavam com aquilo que aqueles no topo do partido tentavam comunicar. Este é um dos motivos que me levam a dizer que, no futuro, se a liderança do Talibã não conseguir manter toda essa base alinhada às decisões que tomam, isso pode ser um perigo para o próprio Talibã, porque estes soldados rasos terão outras opções. O Estado Islâmico é uma delas. 

SBT News: O senhor disse que houve uma mudança nesta área com as madrassas. Como isso aconteceu e qual foi o impacto ? Como a religião se tornou mais importante que a cultura? 

Professor Syed: Eu mencionei a burca antes, mas as madrassas também são algo cultural. Mas eram diferentes antes dos anos 80, quando o Paquistão, os Estados Unidos e a Arábia Saudita patrocinaram milicianos árabes aqui no território pashtun pra treiná-los e deixá-los prontos pra lutar contra os "ateus" soviéticos. Depois disso, a cultura árabe passou a prevalecer em toda essa região pashtun, em cuja cultura eles não acreditavam. Pra eles, o Islã não era apenas uma religião. Era a cultura também. Então, isso foi um desafio pra cultura pashtun. Antes, costumávamos usar muito as hujras, pra definir o "espaço coletivo pashtun", onde costumávamos sentar juntos e dividir muitas coisas, como música e até algumas fofocas. Agora, isso acabou. Toda a sociedade foi transformada numa mesquita. Então, as madrassas se tornaram um ícone, um dos principais sinais e símbolos da cultura árabe trazida pra cá. E depois de 1999, quando a Al-Qaeda veio para essa região do Paquistão e Afeganistão, essa região inteira foi convertida em uma espécie de madrassa. Agora, temos mais de 35 mil. Não digo que não havia antes desse período. As madrassas estavam lá, eram um artefato cultural. O que aconteceu foi que as madrassas mudaram depois de 1980, com o dinheiro que chegava ao Paquistão via Estados Unidos e Arábia Saudita. Muitas madrassas foram abertas. Elas tornaram-se parte da economia, um negócio mesmo. A guerra tornou-se um negócio. Isso destruiu a cultura local. Os sinais e símbolos da cultura local foram literalmente explodidos. Vários terroristas suicidadas foram às hujras e causaram explosões. Eles mataram nossos velhos: mais 1.200 morreram. Eles são o pilar da nossa sociedade. Nossa música, nossa arte, tudo foi destruído. Muitas pessoas deixaram o país. Toda essa cultura árabe, que mais tarde virou a Al-Qaeda, ela desafiou a cultura local, trouxe o islã político dos árabes. Por causa disso, surgiu o Talibã. E agora, o Talibã poderá se dividir se não impuser outra versão radical do islã político dos árabes, que se chama. Vai ser um imenso desafio para o Talibã manter o governo e o poder e, ao mesmo tempo, manter alinhados os soldados da base. Muitos são ultraradicais e defendem uma forma mais ortodoxa do Islã. 

SBT News: Quão ruim isso pode ser para o Paquistão? Neste momento, há uma alinhamento do governo paquistanês com o Talibã. O senhor acha que essa interpretação extremista do Islã pode ganhar força por aqui também? 

Professor Syed: Não há um Paquistão. Pra mim, há dois. Há a elite, os militares, os parlamentares, os líderes políticos, que são, majoritariamente, não pashtuns. Pra eles, não importa muito. Eles ficarão felizes porque a guerra não vai acontecer nas cidades e nas terras onde esses grupos vivem. O outro Paquistão são as áreas de fronteira onde os pashtuns vivem. A chamada "Guerra ao Terror" aconteceu basicamente na região (do Paquistão e Afeganistão) onde os pashtuns vivem. No Paquistão, aconteceu principalmente nas províncias de Baluchistão e Khyber Pakhtunkhawa, duas das quatro províncias do país. Então, os pashtuns estão preocupados porque são eles os que mais sofrem. É a região de fronteira que será desestabilizada se o Talibã  falhar na missão de trazer paz para o Afeganistão. Se ainda houver Al-Qaeda, Estado Islâmico e militância islâmica no Afeganistão, a área mais afetada serão essas duas províncias do Paquistão. Então, aqueles que estão em Islambad, estão menos preocupados com isso porque acreditam que o Talibã é amigo deles e que vai trazer paz para o Afeganistão de alguma maneira. Mas nós estamos muitos preocupados porque essa luta aconteceria nas nossas fronteiras, nas nossas terras e os pashtuns seriam muito prejudicados.  

comerciantes pashtun
Comerciantes Pashtun/ Sérgio Utsch SBT


 

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